
Que a lua
se aproxime
E seu véu
a terra cubra
Metade de mim
é aurora,
a outra metade
penumbra
Que os homens
se perdoem
da destruição
deste mar
Metade de mim
é terra,
a outra metade
teu lar
Sfsousa/olharomar
Ao fundo o palco montado
esperando a actuação dum grupo de musica de baile,
sobejamente conhecido da maioria das pessoas,
de nome artístico Diapasão,
a praça ondulava com esse mar de gente
que bailava aqui e ali,
acotovelando-se e sorrindo,
enquanto outros chegavam com a pressa imensa
de se poderem lançar um passo de dança
antes que a música se acabe
E chegou imensa gente, pessoas de todos os lados,
gente de todas as profissões e estratos sociais,
todos dançando ou se mexendo, dando asas à sua alegria,
por momentos desprendidos do peso do trabalho ou obrigação,
dançando sem medo ou receio de se perder num passo de dança
ou trocar seus passos
…é a dança popular no seu melhor.
A música surgindo em catadupa,
cantor quase sem sossego e voz sem descanso
soltando essa música que entra no ouvido
e obriga o corpo a mexer,
embalando a vontade de dançar,
Nota-se em muitos casais a vontade de participar,
olhando-se nos olhos e movendo o corpo
como se seu corpo atraísse o outro corpo,
desejoso da dança e do movimento
Não escapando imune a esta magia e confusão,
agarro na Delfina com uma mão,
puxo seu corpo e rodopio no meio de tantos corpos,
encostando a minha cabeça à sua,
tentando acertar meu passo com a música e com o coração,
bailamos levemente enquanto a música toca,
os pés parecendo não tocar o chão,
os corpos aconchegados nesse amor
que nos agarra e funde
...até se acabar a canção.
Sfsousa/olharomar
As pessoas regressando a sua casa,
esperam o cair da noite para de novo se largarem na rua
e desfrutar desta festa de encerramento com perspectivas de alegria no seu seio
e eis que a noite se aproxima,
as luzes e os arcos festivos iluminam as ruas que cercam a igreja matriz
e nos faz sentir que o dia roubou um dia ao seu descanso
e nesta data nos cobre de luz.
Todas as ruas convergem para o adro da igreja onde está o palco montado
e as barracas de venda de bugigangas, brinquedos e balões
animam a criançada,
as barracas de farturas e doces regionais
fazem as delícias dos adultos.
Mais longe os carrosséis rodopiam
em corridas psicadélicas e música estonteante
escondendo o barulho dos seus movimentos
e as crianças reclamando aos pais,
puxando das saias às mães
fazendo birras ou pedindo todo o tipo de atenção para poderem,
nem que seja por uma vez, rolar no carrossel de cores brilhantes,
que neste dia nos remete a outras vidas e passado de recordações.
No adro da igreja, perto da entrada da antiga casa paroquial,
uma tômbola tenta vender artigos oferecidos pelos paroquianos
na ânsia da angariação de fundos para a realização das obras da igreja,
que neste momento e com este pároco
começam a tomar forma e a serem realizadas,
na tentativa de recuperar os salões da Cripta,
palco de sempre das varias formas de cultura que despontavam na freguesia
e de intensa actividade cultural aí realizada,
até há bem pouco esquecida.
Sfsousa/olharomar
foto de Julio Lemos
Chega a religiosidade terrena,
o palio albergando o padre e a divindade,
as pessoas se baixando, ajoelhando,
quando o discípulo do Senhor passa,
sua devoção demonstrando
numa clara manifestação de fé
e de respeito ancestrais
Um pouco atrás
as figuras representando as forças ditas vivas da freguesia e do concelho,
outras ainda tentando via eleições,
se acomodarem aos lugares públicos
e manter os seus rendimentos e tachos,
algumas definhadas,
mas tentando neste dia mostrar algum alento,
sobretudo os políticos já que as eleições autárquicas se aproximam
e há que se apresentar ao povo neste dia
para se tornarem notados e vivos,
na tentativa de anestesiar a memoria das pessoas,
mesmo que nos últimos anos se tenham sobejamente esquecido delas,
da vila, dos melhoramentos e da qualidade de vida,
e sorriem para o povo que cerca a procissão,
sorriem para um lado e para o outro,
para as pessoas que nas varandas das casas
vão acenando sem os reconhecer,
são sorrisos amarelos,
sem uma ponta de seriedade ou confiança,
sorrisos vazios de verdade e de esperança
e nesta mentira envergonhada
alguns pedroenses vão virando a cabeça e sorrindo
num gesto de desinteresse patente,
outros, saudando-os
como se a importância de estar perto dum politico
e manifestar qualquer tipo de cumplicidade e dedicação,
fosse o alfa e o ómega da sua existência.
A terminar surge a banda de música da terra,
com os acordes e melodia conhecida de todos,
sempre igual, nesta marcha repetida,
mas que sempre nos toca pois é a procissão da vila
e a homenagem ao nosso santo padroeiro
que uma vez por ano desperta
abraçando sua terra e sua gente,
recolhendo suas homenagens e suas dádivas.
A procissão passou e os santos recolheram ao seu refúgio,
cumprindo a sua obrigação de religiosidade e, se retirando,
voltam de novo ao seu sono celestial,
recuperando forças para receber os pedidos de todos os devotos
e poder em descanso eterno, voltar de novo para o ano,
com nova pujança e com nova esperança
que a humanidade dê a mão
e não desperdice sua vida e seu amor.
sfsousa/olharomar
foto de Karina Bertoncini