Hoje a música entrou no meu corpo
e devorou minha pele como fogo incontrolado,
Saí de casa e à suave brisa que corria nos campos
entreguei meus pensamentos
comecei a andar na noite,
a Delfina acompanhando o vento,
em passo apressado
como se a lua de nós se despedisse
e em breve escapasse,
saímos disparados para o imprevisto,
caminhando sem pensar,
roçando esquinas de ruas
há muito perdidas nas nossas memorias,
e vagueamos por caminhos de mineiros,
bairros operários onde ainda hoje se sente nas pedras das ruas
o trabalho duro, o esforço pesado e esgotante,
a força inigualável da vontade deste heróis das minas,
presente nos cheiros das casas e nos labirintos das vielas,
as almas dos mineiros que sempre nos acompanharão
seguem-nos com o olhar
iluminando o caminho e as calçadas
para não nos perdermos
tomando conta de nós
e aconchegando-nos nos abraços da brisa serena
embalam nosso orgulho e nossas memórias
Percorremos grande parte de ruas cujos nomes não sabemos,
num passo apressado,
passando por outras ruas e outras casas que a vida abençoou,
chegamos à nossa igreja,
aberta neste dia de S. Pedro,
padroeiro da nossa freguesia,
a porta disparando raios de musica e cor
brilhando nas asas dos anjos
fugindo dos seus altares,
sempre que a voz da cantora lírica explodia no ar,
esvoaçando de prazer celestial
o coração nos convidava a entrar
…um agrupamento dirigido por um maestro da nossa terra,
uma voz feminina fantástica,
anestesiava nossos sentidos
deixando fluir a musica e o sonho
nas melodias que nos arrepiavam
sempre que emprestava a sua voz às notas
que dos instrumentos saltavam
Foi um acabar de noite inesperado e belo.
Sfsousa/olharomar