sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Alentejo...renascer



Do ventre da terra seca e morta,
abrem-se gretas ressequidas com o suor dos corpos
que aqui largaram seu sabor e sua vida

com violência de espadas dirigem seu grito ao sol,
abrindo brechas e disparando em direcção ao céu,
são braços vazios,
secos de vida na terra que os venceram,

mas na extremidade das mortes,
surgem vidas renascidas
poisos de novas vidas que virão,
sempre,
repetidamente,
procurando nesta lonjura bravia e seca,
o descanso sereno da vida
e o seu eterno acordar

sfsousa/olharomar

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Alentejo...noite escura

É noite escura,
o céu à minha frente
desfila toda a sua sensualidade
nesta noite que para nós ainda não despertou

sigo as constelações que mais perto nos cercam,
 a ursa menor me seduzindo
e tantas outras me cercando,
a estrela polar enviando seu brilho e  luz
pestanejando sua sensualidade e cor
nos deixa arrefecer com este vento
que a planície rasga de amor,
nos trespassando na noite
com uma aragem leve e fresca
que o dia não permite

sfsousa/olharomar

domingo, 22 de agosto de 2010

Alentejo...sol vermelho


O ar morno corre na noite e na alma
serpenteia entre sobreiros despidos da sua virtude,
nus,
de cintura seca e imagens de sol vermelho

A lua esconde-se no fundo negro
onde brilham estrelas de intensidades distintas,
estrelas com a cabeça desperta
outras no silêncio inatingível da imaginação,
voam para nós
marcham livremente nesse céu infinito
onde nos atrevemos sempre a sonhar
a brisa toca-me morna de lampejos
sobre o meu corpo quente da noite
e a minha boca ainda vazia de beijos,

sfsousa/olharomar

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Alentejo...até amanhecer



As portas marcadas das entradas dos apartamentos
enrouquecem os nossos corpos doridos
que se deixaram levar na noite e nas estrelas
e amaram bravamente até esse infinito que nunca se alcança,
fazendo amor até amanhecer

sfsousa/olharomar

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Alentejo que o vento amacia


O silêncio continua…
como pode este silêncio viver
…oiço vozes das crianças dos vizinhos,
que agora despertaram para o dia.

Continuamos debaixo do toldo verde
que o vento amacia,
levantando e descendo
como se respirasse docemente
emprestando um pouco de sombra
nos refugiando dos raios impressionantes do sol
que continuam a tentar trespassar defesas
iluminando todo o nosso corpo com a sua claridade estonteante
e as palavras por muito simples que sejam
neste universo imenso da planície não conseguem dizer nada
só o silêncio
...que o vento amacia

sfsousa/olharomar

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Alentejo...




O calor aperta
oiço musica, escrevendo 
a quietude transporta meus desígnios da escrita
a musicalidade entra em meus ouvidos
e me obriga a escrever
 incentivando a não deixar os dedos descansar
este silêncio pesado nos remete ao nosso mais profundo intimo
reflectindo nas estrelas
que a noite há-de trazer,
voando nos seus sons e desejos reprimidos

sfsousa/olharomar

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Alentejo...




Existe um silêncio que o voar dum pássaro
por um ou outro momento quebra,
mas recolhendo à sua árvore e à sua sombra,
o silêncio penetra de novo
e nos leva a descansar o espírito
para lá do esquecimento

sfsousa/olharomar

domingo, 15 de agosto de 2010

Alentejo - um dia mais



Depois da caminhada
uma vista sobre a piscina,
vazia de gente, e nós dois,
só nós dois,
cúmplices deste descanso,
à sombra,
em frente à piscina que reflecte  ao sol
sua água límpida e transparente
e quando a visão se levanta,
a pradaria com alguns sobreiros
emprestando sua sombra à planicie seca e sem vegetação,
nos remete para outros lugares
de silêncios indómitos
convidando o pensamento a divagar
e a esquecer que o mal existe

sfsousa/olharomar

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Monte dos Arneiros - uns dias de descanso em pleno Alentejo





Monte dos arneiros – chegada a este monte alentejano, típico e rural para uns dias de férias e descanso com a minha Delfina, que sempre acumula este sossego e mo empresta na hora de retemperar forças e enfrentar nosso destino.

A noite está estrelada em céu negro,
miríade de estrelas nos acompanhando,
pintadas no firmamento,
presas aos nossos olhares
que fugiam dos corpos,

deitados nesta noite escura,
estendidos ao longo desta piscina
sensual,
debruçamos corpos e suores
roubados ao dia
fortalecendo o amor
é silêncio em melodia
que nos acompanha na noite
e seca de desejo a planície

sfsousa/olharomar

domingo, 18 de julho de 2010

esse corpo...


esse corpo
que as cores liberta
num belo arco-íris
de nuvem anunciada
vai chegando
nesses sons profundos
de corpo que baloiça
no compasso do vento,
transportando
tua vontade correndo
 juntando
teu sossego ao meu

Sfsousa/olharomar

terça-feira, 6 de julho de 2010

Foz


Quis sentir no corpo o poder das brisas e das marés, tropecei na foz do douro, eram cerca das 14:15 dum qualquer dia de verão.

O vento tocando as águas refreia a vontade do rio entrar no mar e parece que vai recuando sem a certeza do seu beijo ter tocado as águas verdes e salgadas.

Parei nesta avenida da Foz, poiso de quem quer não sentir, não pensar.
Olho as pessoas passando, a pé, de bicicleta, deixando o corpo voar e sentir esta maresia que sempre nos desflora, trazendo seu destino no vento.

Nesta beira rio, aproveito o silêncio das águas calmas e brilhantes, uma estatua ao fundo de asas recolhidas nos faz sentir porque não levantamos voo quando a dor nos abraça.
Os barcos estão refugiados noutro cais, do outro lado do rio e sigo a marcha cadenciada de alguém que passa por mim, em direcção à foz, até que não o consigo enxergar.

Os minutos passam, espero uma chamada que me acorde para a realidade e desbloqueie os sentidos.

Aqui faz calor, as gaivotas pairam sem esforço sobre o leito do rio e mo emprestam, como se ele fosse só meu e eu o tentasse agarrar na ilusão de poder colher os seus amores, as suas vidas desacompanhadas e enviá-los com esperança até à foz.

Paira uma sonolência que me obriga a fechar os olhos e a reviver o passado, sinto o corpo e a alma abertas, esperando que alguém me toque e me faça sentir, acordando dessa sensibilidade que nos imobiliza.

A praia ali tão perto e eu imóvel, sem conseguir lá chegar, é o vento que  não me deixa entrar no seu mar e me devolve ao rio, em ondas serenas e doces de marés adormecidas.

Serafim Sousa/olharomar

sábado, 19 de junho de 2010

Fecho os olhos lentamente... ...




Despertamos com a aurora
os nossos corpos suados
e de novo sonhando
o sopro dos corações
juntos de novo
batendo em crescendo
nos nossos peitos
e amando… amando
até que o amanhecer
de novo se deite
e se torne na noite
do novo dia que agora acaba

E eu e tu
de novo
se entregando fielmente
meus braços te aconchegando
o amor renascendo
já que mesmo amanhecendo
dum longo dia cansado
fecho os olhos lentamente
e a sonhar me deito acordado

Sfsousa
foto de Wojtek Aleksandrowicz

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Fecho os olhos lentamente..




Fecho os olhos lentamente
quero acordar de mansinho
gozar o prazer imenso
de cada carícia
de cada gesto
de cada momento
que esvaindo se vai
…tão brevemente

  sfsousa

terça-feira, 15 de junho de 2010

Fecho os olhos lentamente…




Fecho os olhos lentamente
respirando teu sopro
surgindo batendo no meu peito
mulher amada em meu corpo
desejada em meu leito

Não mais se acabe a noite
e que um sopro divino
contenha o favor dum Deus
que do Olimpo
meus anseios adivinham
o teu corpo descobrindo
e de pecado em pecado
iluminando meu caminho
percorrendo esse amor terno
a meu lado deitado
sofrendo devagarinho

sfsousa

domingo, 13 de junho de 2010

Fecho os olhos, lentamente


Fecho os olhos lentamente
na noite que agora começa
e para ti vivo
será hoje um sonho diferente
teu corpo nu buscando                   
tendo meu corpo presente
em teus braços se aconchegando
fecho os olhos lentamente


sfsousa

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Te recordo menina


Sorriem as minhas lembranças
de quando eras menina,
olhos vivos e brilhantes,
convicções fortes despertando
uma vontade imensa de aprender,
aqui estás tu,
com muita força e querer
o final de curso chegando

É um orgulho enorme
e impotência imensa
quando não consigo encontrar palavras
para manifestar o calor que sinto no coração

e te olhando,
te recordo menina,
com perguntas seguras
que me atrapalhavam
desejosas de resposta
ávidas de conhecimento

hoje és mulher e moça,
linda e brava Catarina
teu luar que começa neste dia
bebeu teu esforço, tua aplicação
sem queixume te entregaste à luta,
 sempre
e a luz que te persegue
sossega meu coração
…estás pronta para a viagem
e te recordo menina
em lembranças sorrindo

sfsousa

sábado, 22 de maio de 2010

Estou cansado...

Rebuscando memorias do passado encontrei algo que escrevi em 28/07/2007 e quando me dou conta que nada mudou, entendo porque estou cansado


Estou cansado de todas as mentiras
em político engalanadas
de rostos definhados com ar de sério
com pensamentos plenos de mentiras
e de choque em choque nos despedindo,

estou farto
os homens caminhando sem objectivos,
as vontades esmorecendo
as lutas há tanto reclamadas
estão perdidas, enterradas

não se vislumbra qualquer chama
a juventude há muito desistiu
segue acomodada
sem sentido de vida
está também perdida
e em breve massacrada
pelo movimento dos relógios
das roupas de marca
dos telemóveis da terceira geração
e a luz ao fundo não se vê não

é luz escondida no passado
acomodada nos tempos de hoje
aos pedaços de nada
às fúteis discussões sobre tudo o que é vago
e a juventude parada
neste vazio aguardando
o medo do amanhã
que chegará mais pesado
e de revolta em revolta
a vida se perdendo
o relógio do tempo chegando
sem perdão e sem volta.

sfsousa/olharomar

terça-feira, 11 de maio de 2010

MINAS - S. Pedro da Cova


És S. Pedro da Cova
terra negra e amiga
devorada de tanto negro

de gente simples
 malteses enrolados
nas suas mantas descoloridas
sem casa nem lar
só trabalho e vida para dar

os corpos
sobre as cinzas negras destas terra,
seguem
os ruídos das águas da mina,
nas picaretas em uníssono
dos metais em desatino,

as mulheres de negro vestidas
suas almas chorando
dor e raiva nos peitos contidas
seus homens esperando 
que cabisbaixos sangravam

no fundo da mina
um pedaço da vida largando
em mais um dia
a saúde em agonia
em carvão a vida esvaziando

finalmente as grilhetas abertas
a mina fechou
outra vida chegou
a dignidade desperta
soltou medos e voltou

Sfsousa/olharomar

domingo, 2 de maio de 2010

MÃE



Um escrito feito pela minhas filhas, para a sua mãe, a minha Delfina, neste dia de homenagem a todas as mães

MÃE

Como posso eu te retratar
se és um manto protector
que envolve os seus rebentos
protegendo-os da malícia e da dor
és alma e ternura,
és berço carinhoso…
em ti sinto aconchego
uma vontade de gritar aos céus
como me sinto a filha mais amada do mundo
não digo isto muitas vezes eu sei
e raramente o demonstro
mas a imagem que tenho de ti é inimaginável
pois é tal a adoração que por ti sinto
feliz de mim que és minha mãe
feliz de mim que te tenho
pois a verdade é que outra mãe não quereria

Das filhas Joana e Catarina

quarta-feira, 21 de abril de 2010

serei...

serei vento e tormenta  
entre fuga e dor

serei coração ardente
ilusão do sentir

serei céu e alma
tua pele minha flor

serei amor e lágrima
ausência do que sou

serei chuva e vendaval
um choro só meu

serei lar e horizonte
de tudo o que restou

serei nota de música
com alma de acordeão
calor e ninho
na palma da minha mão

Sfsousa/olharomar
foto de Wotjek Aleksandrowicz

sexta-feira, 9 de abril de 2010

vermelho ruivo




O vento frio surge do mar  
beija com a força da noite as minhas faces
acorda forças em ti adormecidas,
é vento do norte
sopra quando menos se espera
e adormece em vermelho ruivo
todo o meu corpo

sfsousa/olharomar

quarta-feira, 31 de março de 2010

Cavalete de S.Vicente - monumento de interesse público


Nesta terra que tende a esquecer as suas referências ou a não valorizar as suas memórias, o cavalete do Poço de S. Vicente é hoje monumento de interesse público – um marco de recordações que se perpetuará, reflectido nessa montanha de carvão que o precede, será luz de futuras gerações sobre os sofrimentos aí infligidos, as doenças que cercavam os corpos dos mineiros, as forças que se acabavam com o romper do dia e as imensas vidas perdidas fora de tempo.

Presto a minha homenagem à minha terra, aos mineiros que na mina soçobraram e a todos que pela sua coragem vestiram sua pele e lutaram pela sua vida e dignidade:

O céu abre a sua parte rebelde
nos dedica a sua parte soalheira
desalento em carvão de madeira
manhã manchada de nevoeiro
que chega em solenidade
despojada nos teus pés de santo

és terra de negro vestida,
de carvão trajada,

de vontade imensa de lutar,
de trabalhos árduos,

das bocas secas em poços sem fundo
de liberdades inalcançáveis

da luz do dia ao fundo do túnel
dos canais irrespiráveis

E nossos pais e avós
lutando em desespero
por um pedaço de dignidade
um bocado de pão
esperando alguém santo ou não
lhes desse a mão
e um suspiro de liberdade

sfsousa/olharomar